Trabalhadores do STF relatam experiências do 8 de janeiro

Documentário reúne relatos de quem viu de perto a invasão e participou da restauração do edifício-sede do Tribunal

08/01/2026 20:19 - Atualizado há 7 dias atrás
Card na cor preta. Do lado esquesta está uma imagem do busto da imagem da Justiça e do lado direito o nome do documentário:

Ao visitar o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), a piauiense Laís Bezerra, 61 anos, fecha os olhos e retorna ao 8 de janeiro de 2023. Jamais poderia imaginar que o espaço, símbolo do lugar onde passou grande parte de sua vida nos últimos 31 anos – e onde fez colegas e amigos – seria palco da destruição daquele dia, que ela jamais esquecerá.

Inconformados com o resultado das eleições do ano anterior, vândalos invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília, numa tentativa de criar as condições para um golpe de Estado. A investida não prosperou, mas as imagens do ataque chocaram o mundo: plenários conspurcados, vidraças estilhaçadas, cadeiras arrancadas, tapeçarias rasgadas e sujas, e obras de alguns dos maiores artistas brasileiros – símbolos da democracia – quebradas, pichadas e tratadas como lixo.

Entre os palácios da Praça dos Três Poderes, o edifício-sede do STF foi o mais depredado. Três anos depois, a história do ataque, vista a partir do olhar de seus trabalhadores – aqueles que estavam no prédio no dia da invasão ou que participaram da reconstrução do palácio – é o pano de fundo do documentário “8 de Janeiro: mãos da reconstrução”, produzido pela TV Justiça.

O filme revisita um dos episódios mais marcantes da história recente do país para evitar que algo semelhante volte a acontecer. A partir desse olhar, revela trabalhadores vindos de diferentes regiões do Brasil que fazem parte do cotidiano da Corte. Eles presenciaram os ataques, temeram por suas vidas, por seus empregos e pelo futuro do país. Agora, relatam suas lembranças do dia 8 de janeiro e refletem sobre as lições deixadas após o trauma.

Segunda casa

Mais do que atacar símbolos da democracia brasileira, os golpistas tentaram impor sua vontade pela força. A arquitetura modernista de Brasília, que desde 1960 projeta para brasileiros e estrangeiros a principal aspiração do país, cedeu lugar à ruína.

Para Laís Bezerra, porém, o ataque também foi uma agressão a um espaço que ela e muitos outros chamam de segunda casa. “Foi isso que mais doeu. A sensação é de que os vândalos talvez não tenham percebido que o STF é feito de pessoas comuns, brasileiros como eles”, ressalta.

Restauradora no STF, ela é encarregada de recuperar peças históricas, como a cabeça de bronze de Têmis, a deusa grega da Justiça, arrancada pelos vândalos de uma altura superior a dois metros. Laís retornou ao trabalho o mais rápido possível, já no dia seguinte aos ataques. O que até então acompanhava apenas pela televisão ganhou outra dimensão. “As pessoas não têm ideia de como isso aqui ficou. Além da destruição, havia um cheiro insuportável de xixi. Até hoje me pergunto o que passava pela cabeça de quem fez isso”, afirma.

Quem viu de perto

Natural de Goiás, o agente de segurança Emerson Freitas, 35 anos, revê as imagens do ataque e reage como se tudo estivesse acontecendo novamente. Ele, que atuou na linha de frente para conter os vândalos, lembra da barricada humana que formou com os colegas para impedir o avanço da turba. Não consegue esquecer os gritos dos golpistas, o impacto seco das pedras contra os equipamentos de proteção e o medo de morrer.

“Tivemos colegas feridos, gente com a perna machucada, a cabeça sangrando. Foi como uma cena de guerra. Muito assustador. Naquele momento, tudo o que eu queria era ligar para minha mãe e dizer que estava bem. Mas o profissionalismo fala mais alto. Depois, fiquei em estado de choque. Foi difícil voltar a trabalhar”, relata.

A vigilante Maria Guiomar Silva, 56 anos, também de Goiás, conteve o medo durante o ataque, mas não conseguiu segurar a emoção nos dias seguintes. “Passei três ou quatro dias chorando”, lembra.

Guiomar viu tudo acontecer pelas janelas do terceiro andar do edifício-sede. Assim como Emerson, estava de plantão naquele domingo. Quando percebeu que o prédio estava sendo tomado, entendeu que pouco poderia fazer além de escapar para preservar a própria vida e a dos colegas.

“A gente começou a gritar: ‘Estão invadindo o prédio, vamos sair!’”, recorda a brigadista Luciane Oliveira, 42 anos, de Brasília. Foi ela quem acionou o alarme e ajudou a evacuar o edifício. “Era tanta gente que parecia um mar. Como uma onda vindo em direção ao Supremo.”

Democracia inabalada

Após o “tsunami humano”, restou o cenário de destruição. Veio também o compromisso de restaurar o Plenário em tempo recorde: 24 dias depois, em 1º de fevereiro, para a abertura do Ano Judiciário. “Todos os setores precisaram se envolver, e conseguimos cumprir o prazo”, recorda Agostinho Júnior, da área responsável pela gestão do prédio.

Uma força-tarefa foi montada para dar conta da missão. Poltronas e cadeiras do Plenário foram totalmente repostas, assim como mesas de julgamento e tribunas. Livros e processos atingidos pela água e pela sujeira passaram por tratamento técnico; obras do acervo histórico receberam conservação emergencial; sistemas de informática, redes e cabos foram revisados; câmeras, alarmes e sensores de segurança, reinstalados.

Um dos momentos mais simbólicos foi a lavagem da Estátua da Justiça, obra do escultor Alfredo Ceschiatti, instalada na Praça dos Três Poderes. Feita em granito, a peça foi pichada com uma resina vermelha. A limpeza durou quatro dias e ficou a cargo do restaurador mineiro Gustavo dos Santos, 49 anos, que precisou combinar diferentes técnicas para remover completamente a tinta.

“É uma estátua histórica, está aqui desde a construção de Brasília. Representa o papel do Judiciário. Ter a responsabilidade de limpá-la foi muito gratificante. Sinto que, graças ao meu trabalho, o STF pôde devolver este monumento intacto aos brasileiros”, afirma.

O esforço tinha um objetivo claro: garantir que a Corte Suprema do Brasil retomasse plenamente seu funcionamento e que as sessões de julgamento não fossem interrompidas pela violência nem submetidas à vontade dos golpistas. Em poucos dias, o Tribunal voltou a julgar, reafirmando na prática que decisões da República não se suspendem pela força.

Futuras gerações

Para o agente da Polícia Judicial Rogério Viana, 56 anos, brasiliense, a resposta do STF ao 8 de janeiro de 2023 mostrou ao país e ao mundo a força das instituições brasileiras. Ele também vivenciou os ataques na pele e não se esquece do momento em que, acuado, precisou ser socorrido pelos colegas para não ser agredido pelos golpistas.

O agente se emociona ao falar do que poderia ter acontecido – não só a si mesmo, mas ao país – se o golpe tivesse se concretizado. Ao refletir sobre seus 31 anos de carreira no STF, lembra dos filhos e do legado que, ao longo desse período, tem ajudado a construir para as futuras gerações. “Nossa democracia não foi abalada. Ela foi fortalecida, sem sombra de dúvidas. E as pessoas que atentaram contra ela não foram capazes de ir além da destruição material”, pondera.

Emerson Freitas também é pai e pensa da mesma forma. Ele tem uma filha e diz que, sempre que pode, a leva ao trabalho para que ela entenda desde cedo o papel que o STF desempenha em sua vida. “O que eu quero é que ela veja este lugar como uma casa, um poder que garante seus direitos, para que, quando crescer, se lembre de que este é o lugar que protege o direito que ela tem de ser uma pessoa livre.”

Responsabilização

Desde os ataques, o STF instaurou centenas de ações penais a partir de denúncias oferecidas pelo Procuradoria-Geral da República (PGR) relacionadas aos atos golpistas e proferiu uma série de condenações, inclusive de articuladores do ataque e de estrategistas políticos da tentativa de golpe. Em todas as fases dos processos, a Corte assegurou aos acusados o devido processo legal e a ampla defesa. Além disso, homologou acordos de não persecução penal (ANPP) firmados entre a PGR e acusados de crimes de menor gravidade.

(Gustavo Aguiar/AD)

Assista à íntegra do documentário.

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